Como se valorizar

Há um mundo lá fora onde o narcisismo impera. Um mundo onde cada pessoa só se preocupa consigo mesma, ou pelo menos, é continuamente encorajada a tal.

Um mundo onde a cultura e o entretenimento promovem a ideia de que o sarcasmo e o escárnio são divertidos e espirituosos, principalmente quando direcionados às pessoas de quem não gostamos.

E em que a nossa habilidade em publicar fotos em aplicações informáticas estabelece o quanto valemos como seres humanos. Definir o seu valor com os ideais da cultura pop e dos filmes de Hollywood vai atirá-lo para um poço sem fundo.

O nível de grandiosidade a atingir transforma o seu ego num buraco negro. Não importa a quantidade de ouro que atirar para dentro, será sempre engolido sem preencher o vazio.

A evolução da tecnologia e o fim dos valores morais.

O mundo avançado da época atual presenteia-nos com um conforto como nunca existiu na História. A evolução da tecnologia nos últimos 100 anos não tem precedentes.

Esta evolução teve um impacto colossal na sociedade, alterando para sempre os valores morais que a regiam. Mudanças sociais totalmente impensáveis, há não muitas décadas.

Não querendo parecer demasiado niilista, repito o que disse noutros artigos; acredito que nunca existiu uma melhor altura para se viver do que hoje. Ainda que as facilidades e o conforto de que desfrutamos nos tenham tornado superficiais e enfatuados.

Com o conforto, veio também a libertação das regras e dos valores morais que predominaram durante séculos (se essa libertação é boa ou má, fica a seu critério). Em contrapartida, fomos arrebatados da autodisciplina que nos protegia dos impulsos naturais da nossa biologia.

Fazer sempre o que as nossas emoções nos dizem não é bom para nós. O vício em gratificações imediatas não nos torna mais realizados como seres humanos.

A ausência dos nossos smartphones, do acesso às redes sociais, e de séries e filmes infinitos, não deveria de nos provocar ansiedade. Viver com uma necessidade de estímulo constante não é natural. 

Sem valores morais, sem autodisciplina, e sem o poder de adiar as gratificações imediatas, de onde vem o nosso valor pessoal? O marketing empresarial convenceu-nos de que, intrinsecamente, não o temos.

Se não fizer “algo”, se não comprar “algo”, se não for “algo”, não existe.

O seu valor não depende do que as outras pessoas pensam.

As opiniões abundam, principalmente sobre a vida dos outros. Deixar que outras pessoas o definam é uma receita para a falta de autoestima.

“Quando o seu valor depende da opinião dos outros, é impelido a seguir instruções que não foram feitas para si. Participa num jogo em que outras pessoas determinam as regras. Decidem quem ganha e quem perde. Porque é que haveria de participar num jogo desses?”

Faça você as regras do seu próprio jogo, siga-as ou quebre-as à sua vontade. Não precisa do consentimento dos outros para ter valor.

Na minha opinião, deve evitar tornar-se num escravo dos seus impulsos, e exercer sempre alguma autodisciplina em coisas que apenas se tornam recompensadoras a longo prazo.

Como aprender a tocar um instrumento, escrever um livro, tirar um curso, ou praticar exercício físico.

Também não se coíba de desfrutar dos prazeres da vida, mas faça-o em alturas próprias. Ainda assim, a minha opinião é apenas mais uma. O seu valor deve estar totalmente nas suas mãos.

As coisas mais simples podem fazê-lo sentir-se valorizado, como levar uma vida tranquila deixando as outras pessoas pensar o que quiserem, ser minimalista e não se expor a ideais consumistas, ou até viver numa autocaravana e percorrer o mundo.

E pode mudar tudo a qualquer momento, você decide. A sua forma de viver será sempre mal vista por alguém. Se decidir não ter filhos, dir-lhe-ão que é egoísta e que vive centrado em si mesmo.

Se decidir ter filhos, dir-lhe-ão que é egoísta porque já vivemos num mundo sobrelotado que não precisa da sua herança genética.

Sentir-se valorizado deixa-o mais criativo, mais bem-disposto, e com mais desenvoltura para encarar a vida. Jamais coloque esse poder nas mãos dos outros.

Seja assertivo.

Sente dificuldade em dizer “não” quando lhe pedem alguma coisa?

“É difícil valorizar-se quando sente uma necessidade constante de agradar às outras pessoas. Para ser assertivo, precisa de saber fazer recusas quando lhe pedem algo, mesmo que isso signifique deixar outras pessoas zangadas.”

Quando outras pessoas ficam chateadas por você se recusar a investir a sua energia e o seu tempo na resolução dos seus problemas, o problema não é seu. Você não é responsável pelas emoções dos outros.

O oposto também se aplica. Tem o direito de exprimir as suas necessidades e de fazer pedidos, e as outras pessoas têm o direito de lhe dizer “não”.

Ser assertivo é também aceitar as consequências das suas decisões. Ninguém toma más decisões de propósito, e estas são inevitáveis. No entanto, este é um campo no qual a maioria das pessoas não consegue admitir que erra.

Quando as coisas não correm como planeado é muito mais fácil culpar as circunstâncias, ou os “imprevistos”. Para além de aceitar as consequências das suas decisões, deve ainda ser capaz de expressar os seus pensamentos e as suas emoções sem ser ofensivo.

A capacidade de colocar limites e de se fazer respeitar sem ser rude é uma demonstração de confiança, assim como de inteligência emocional.

Saiba aquilo de que gosta.

Ter gostos definidos é também ter uma personalidade definida. Para se valorizar precisa de se conhecer a si mesmo. Embora os seus gostos mudem com o tempo, nada o impede de saber aquilo de que gosta e de que não gosta.

Para ser assertivo e aprender a dizer “não” tem de saber o que não lhe agrada. Os seus gostos são também um indicador das atividades que recarregam as suas baterias. Quem se valoriza cuida de si mesmo.

Tenha requisitos para o que deixa e para quem deixa entrar na sua vida.

De todas as formas de se valorizar, esta é sem dúvida a mais importante. Você não tem tempo nem energia ilimitados, assim sendo, precisa de saber o que é benéfico ter na sua vida e o que deve manter afastado.

Existem situações das quais me mantenho afastado, uma vez que não me acrescentam. Antes pelo contrário, são taxativas para mim.

Situações como: participar em conversas em que falam mal de outras pessoas, ouvir outros a queixarem-se dos seus problemas, e ainda, assistir a programas ou notícias com previsões pessimistas.

O tipo de pessoas com quem investe o seu tempo é também um apurado indicador do quanto se valoriza. Pessoas invejosas e negativas a quem não pode contar os seus projetos devem ser mantidas longe.

Abandone situações tóxicas e vire também as costas a pessoas rudes. Não pode controlar o comportamento dos outros, mas pode afastar-se.

Saiba quais as suas forças e as suas fraquezas.

Conhecer os seus pontos fortes não serve para se vangloriar ou para enaltecer o seu ego. Serve para saber quais as melhores atividades para investir o seu tempo, uma vez que geram mais valor para si, ou para outras pessoas.

Você pode ser péssimo em acontecimentos com muita gente e que requerem uma grande ginástica social, mas pode ser um excelente conselheiro de um para um.

Saber as suas fraquezas é mais uma maneira de fazer uma gestão de tempo frutífera. Valoriza-se quando permite que a suas melhores qualidades criem resultados no mundo real.

Deixe um comentário

error: Conteúdo protegido!